A obra de Marx e Engels ora analisada possui relevância essencial por conter a fundamentação crítica que esse autor atribui ao conceito de ideologia, e mesmo estando este inscrito em determinado contexto sócio-histórico por ele apreciado – o da Europa do século XIX, com especial ênfase na Alemanha, mas não esquecendo países como França e Inglaterra – pode ser transportado para qualquer outro contexto histórico, desde que seja capturado em sua essência e compreendido em profundidade.
Outros aspectos na obra são também importantes para pré-anunciar muitas outras idéias que serão melhor desenvolvidas em sua obra prima “O Capital”, tais como a alienação, a divisão social do trabalho e seus impactos na vida dos indivíduos, a propriedade privada e como ela foi se delineando ao longo da história da humanidade, a luta de classes, as desigualdades sociais, dentre outros conceitos.
Para melhor situar o trabalho dos autores, cabe referendar que partem de considerações à respeito das idéias dos filósofos alemães[1] intitulados como pós-hegelianos ou jovens hegelianos. Marx e Engels indicam que tais autores, ao tentarem empreender críticas às idéias de Hegel, acabaram por discuti-las de maneira inadequada, insuficiente e vazia – baseando-se apenas em fraseologias – pois avaliaram aspectos daquele pensador de forma pontual, mantendo-se na superficialidade, o que ocasionou por emaranhá-los nas teias que acreditavam abominar.
Flaubert, por exemplo, ao posicionar-se “contra” Hegel defende que a alienação (religiosa) permanece no próprio homem, sujeito concreto de todo esse processo, enquanto Hegel defendia que a alienação é a contradição posicionada entre o pensamento abstrato e a realidade sensível, considerada como residente no campo do pensamento. Marx e Engels afirmam que, na realidade, Flaubert “escorregou” ao negligenciar a relação social objetiva na sua totalidade, ou seja, tal filósofo exalta a relação interpessoal em detrimento de sua relação com a realidade social. Referindo-se à esse filósofo, o texto esclarece: “Ele não critica as atuais condições de vida. Nunca chega, portanto, a considerar o mundo sensível como a soma da atividade viva e física dos indivíduos que o compõem [...]” (p. 46).
Para Marx e Engels, portanto, cada um desses filósofos, ou melhor, “ideólogos”, acreditando criticar a filosofia hegeliana, acabaram, na realidade, tomando apenas fragmentos, e convertendo-os, cada um à sua maneira, em idéias universais. À partir daí, passaram a deduzir todo o real, que transmutou-se em “real idealizado”. Nesse sentido, esses pensadores, mesmo acreditando que estariam fazendo frutíferas críticas à Hegel, estavam, na realidade, ignorando o contexto sócio-histórico alemão e a própria complexidade das idéias desenvolvidas pelo referido autor. Tais aspectos ficam bastante claros, em síntese, no trecho: “[...] não encontraremos um só crítico moderno que tenha sequer tentado fazer uma crítica de conjunto ao sistema hegeliano, embora cada um jure ter ultrapassado Hegel.” (p. 07).
O aspecto central que pretendemos enfatizar nesta resenha, entretanto, é o lugar estabelecido para a ideologia. Marx e Engels, como se pode perceber avaliando atentamente a obra, manifestam que a ideologia ocorre quando há a separação entre as idéias e as condições sócio-históricas em que estas estão inseridas. Nos filósofos por ele apresentados – chamando-os de cordeiros, mas reconhecendo-os como lobos – Marx tenta frisar que a ideologia sustentada por cada um deles permanece no campo da burguesia, da reprodução daquilo que permeia a realidade ideal burguesa.
Nessa perspectiva, os referidos autores esclarecem que a “espiritualidade” dominante, hegemônica, de dada sociedade é conseqüência da dominação que inicia no campo material, no cotidiano da vida dos indivíduos, ou seja, nas palavras de Marx e Engels: “A classe que dispõe dos meios da produção material dispõe também dos meios da produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles aos quais são negados os meios de produção intelectual está submetido também à classe dominante.” (p. 48).
Assim, a ideologia é concebida como desencadeadora da alienação por impulsionar uma percepção abstrata e sonhadora da realidade, capaz de projetar na consciência dos indivíduos uma acepção fictícia do mundo situado no campo da pura teorização. Marx engendra nesse paradoxo fenômenos como a religião, a moral, as idéias político-burguesas, a metafísica, entre outros, compreendidos, cada um em sua especificidade, como produção espiritual da sociedade, como representações da consciência humana. Nessa perspectiva, se não referendadas, não relacionadas com as relações sociais à elas inerentes, a base material da história socialmente construída é ignorada por completo. Marx e Engels colocam a postura por eles adotada da seguinte forma: “[...] partimos dos homens em sua atividade real, é a partir de seu processo de vida real que representamos também o desenvolvimento dos reflexos e das repercussões ideológicas desse processo vital.” (p. 19).
Marx e Engels afirmam ainda que essa ideologia ganha proporções assustadoramente alarmantes e assume autonomia, passando a ser considerada como norma universal, ou seja, aceita por todas às classes sociais, tornando-se fenômeno que se situa acima delas, enevoando o campo da consciência crítica da realidade, dos embates e das contradições, sendo considerados por todos, nas próprias palavras dos autores como “ [...] os únicos razoáveis, os únicos universalmente válidos” (p. 50) e as classes dominantes empreendem um máximo esforço para que isso de fato ocorra, pois legitima sua dominação.
Para concluir, cabe considerar que a ideologia, na concepção ampliada de Marx, possui papel privilegiado, pois considerando que ao produzir os seus meios de existência, através do trabalho, os homens produzem indiretamente sua própria vida material e nessa produção são capazes de transformar e serem transformados, geram representações desta vida, ou seja, produzem a ideologia, capaz ela de fomentar a produção e reprodução da cultura na sociedade, incidindo diretamente nas relações sociais. À partir do momento que esses processos tornam-se conscientes, refletidos axiologicamente, Marx crê que é possível romper com toda a alienação e promover uma verdadeira transformação na sociedade.
[1] Em especial Ludwig Feuerbach, F. Strauss, Max Stirner e Bruno Bauer (esses dois últimos, inclusive, sendo referendados ironicamente por São Max e São Bruno).
